terça-feira, fevereiro 20, 2007

Código Antropofágico



Órfão de asas firmou os pés sobre a terra molhada, vestiu-se com outras vestes e seguiu. Logo acima, mas fora do seu alcance, flutuava um resto de lua, uma minguante menina cínica com um bouquet de brancos dentes a sorrir da fricção de suas débeis memórias. Circulava-lhe à mente um tempo de horas idas em que fez florescer céus inteiros de estrelas corpóreas. A monstruosidade da mesmice se repetia e era muito enfadonho não poder se mexer. Dia após outro se sintetizava o resultado singular de um temperamento que morria aos poucos no estreito espaço de incontáveis contrapontos. Enquanto desenhava sonhos, muitas imagens se escondiam na lama que já ultrapassava a altura da consciência. No antro do útero-mundo soou um baque surdo de um corpo sem vida que às escuras percorreu sem lua e sem o balé dos vaga-lumes a poesia que sozinha só lhe tecia o medo.
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Nina Delfim

domingo, janeiro 14, 2007

Encontro marcado


Sentaram-se à mesa.

Corpos à mostra exibindo os prazeres suspensos.

De maneira bem comportada trocaram um cumprimento. Tímidos.
Ansiedade circulante. Com requintes de crueldade o bom senso seria devorado em poucos minutos.

O corpo não convenceria o gesto.

- Medo?

- Não. Uma curiosidade nervosa. O momento esperado estava tão atrasado.

- Fome?

- Sim. Estavam famintos. Há muito se desejavam. Devorar-se-iam ali mesmo se o ambiente não fosse tão iluminado.

- Palavras?

- Apenas as necessárias, as que haviam decorado para dizer um ao outro. Aquelas outras ocasionadas pelo cheiro e pelo tato não saiam de suas bocas. Mantinham-nas presas entre os dentes.

- Atração fulminante?

- Alta combustão. O recinto perdeu o frescor. Um calor dos infernos tomou conta de tudo. Primeiro encontro é quase sempre assim...

- Assim, como?

- Ah, olhos nos olhos de ninguém. Um rubor de cem graus bem evidente. O cheiro dela. O cheiro dele. Pernas cruzadas prendendo desejos e depois, a expectativa que é sempre latente logo ao primeiro contato.

- Os dois não perceberam a sua presença?

- Num dado momento pensei que sim. mas não manifestaram reação alguma. Viam-se somente. Mãos inquietas. Gestos constrangidos. Quase me levantei para ir até eles quando os percebi ofegantes.

- Uma interferência tão contundente colocaria um ponto final no seu plano.

- Claro! Segurei-me à cadeira com firmeza para conter a abrupta ânsia. Complicado mesmo foi quando me dei conta de que aquela situação estava me deixando excitado. Minha inércia diante da cena acabou me tornando conivente ao caso.

- O que lhes teria dito?

- Bem, não sei exatamente. Talvez lhes contasse tudo e chorasse um pouco conforme a reação de ambos.
Merda! Agora esta maldita sensação de culpa...

- Calma! Foi só um encontro. Respire fundo e me conte em detalhes.

- A certa altura notei que a vontade de se submeter já empinava os seios dela. Desejei estar entre os dois...
Juntos os três. Entende?

- Sim, mas continue... E o cara?

- Olha, quando ele cruzou as pernas sob a mesa pressionando o sexo entumescido, mentalmente ele já a tinha despido e previsto sucessivas ejaculações entre as coxas dela. Ela estava quente. A face corada a denunciava.

- Ela percebeu a excitação dele?

- Claro que sim! O desgraçado quase gemia...

- Que imaginação fértil!

- A minha também. Quando ela começou a remexer os quadris sobre a cadeira, saquei logo que o suor que molhava o rosto dele era sinal de sacanagem sob a toalha da mesa.

- Deu pra ver alguma coisa?

- Nada além de movimentos sincronizados, mas tenho certeza que ela se viu introduzida até a exaustão porque um cheiro de sexo impregnou o ar logo que os dois passaram por mim em direção ao banheiro.

- E o jantar?

- Não comeram nada!

- Por quê?

- O celular dele tocou.

- Quem era?

- Ele não disse a ela. Levantou-se e saiu.

- Sozinho?

- Sim.

- E ela?

- Saiu em seguida..

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Nina Delfim

sexta-feira, janeiro 12, 2007

O julgamento de Don Juan


A Verdade atrevida, opondo-se à Mentira, disparou assertiva:
- Levante sua mão esquerda e se pronuncie sob juramento.
Jura solenemente dizer a verdade, somente a verdade e nada mais que a verdade?


Antes que o acusado se confirmasse sob juramento, a Mentira, cheia de recursos interferiu:
- Eu protesto! A Verdade está tentando conduzir o juri a duvidar do caráter do Réu. Não é justo exigir que o acusado se pronuncie de tal modo. Até que se prove o contrário ele não é um mentiroso. Não há provas anexadas ao processo atestando a premeditação dos seus atos, portanto não poderá ser responsabilizado pela conseqüência dos mesmos. Que fique bem claro a todos aqui presentes que não servirei à Acusação como testemunha. Só existo enquanto ação consciente!

O Bom-senso que ouvia em silêncio a interferência da Mentira, ao constatar um possível início de atrito entre o fato e a suposta intenção do ato, aproximou-se lentamente do Júri e em tom comedido ponderou:
- Por favor, um minuto! Há que se ouvir com muito cuidado os testemunhos da Acusação e da Defensoria. Precisamos nos manter atrelados aos princípios da justiça.
Atente-se para o fato de que verdade é mera questão de ponto de vista. Sejamos todos sensatos!

A razão, conivente ao Bom-senso, pediu um aparte e acrescentou:
- Se excluirmos a ingenuidade de ambos os lados chegaremos naturalmente a um consenso.
Nada é definitivo se puder ser contestado!

O cinismo pede à vez que não lhe é de direito e com um sorriso amarelo arremessa sarcástico:
- Enquanto justificável, o fim acabará por aprovar os meios...

A Raiva, também presente no recinto, cravou os dentes na fragilidade existente. Ergueu-se abruptamente, lambeu a própria ira com a língua ferina e cuspiu suas odiosas palavras em tom de ameaça:
- Se a verdade não prevalecer, não sei o que serei capaz de fazer...

A fim de conter os ânimos, o Juiz agitado, com o punho cerrado desfere sobre a mesa o golpe certeiro:
- Silêncio no tribunal!

Registradas as colocações, o Réu é convidado a se pronunciar sob juramento.
- Eu juro!

O amor foi chamado ao banco das testemunhas. Optou por sentar-se à esquerda do réu.
A consciência coletiva deu então início ao interrogatório, perguntando à testemunha:
- Poderia o senhor nos informar o porquê do acusado ter feito tantas vítimas.

Apesar de constrangido pela situação o Amor respondeu:
- Não sinto deste modo. A meu ver estou sendo confundido com o Ódio. Foi Afeto desmedido o que ele deu a todas que envolveu. Culpá-lo está fora de cogitação. As reclamantes, estas sim deveriam ser punidas. Condenadas à pena perpétua. As supostas mal amadas vítimas sabem que não sou eterno. Tenho início, meio e fim.

A Acusação protesta:
- O Amor é por demais evasivo! Peço que seja dispensado como testemunha do caso.
Aos olhos da justiça (que é cega) o protesto é aceito e o testemunho retirado dos autos do processo.

A verdade se impôs com um basta e ao acusado lançou a questão tão aguardada:
- Pode nos dizer o que o faz agir de modo tão fugaz?


Todas as atenções se voltam para a Expectativa, mas convicto quanto a inexistência da Culpa, o Réu inicia seu depoimento e com voz de quem nada teme confessa:

- Sou inocente até que se prove o contrário.
Amei intensamente enquanto amava.
Não posso ser acusado de ter feito uso premeditado das que se alegam vitimadas.
Amor é sentimento que não se prende ou se controla.
Quanto a Sedução, ela faz parte do processo e a conquista é conseqüência natural das premissas.
A Razão das minhas investidas está intimamente ligada à minha capacidade de amar que, de fato, é infinita!
Quanto aos sentimentos alheios, penso que cada um deve cuidar dos seus.
Amo em verdade, mas por tempo limitado. Pelo tempo que dura o amor.
Dizem que sou imaturo, nem por isso me sinto culpado. O fato de não me apegar não me torna um criminoso, muito menos um devasso.
Sinto-me saciado quando amo e sou amado. Em nenhum momento recebi das senhoras que me acusam a quantia de amor que necessito. Eu sim, fui usado a contento por todas elas.
Frio interventor de frágeis almas? Isto é um absurdo! Não sou nada disso! Tenho boa índole. Sou bem intencionado!
No que me diz respeito, sou perfeito! Apenas quero ter em minhas mãos o que desejo e uma vez às mãos, se insatisfeito... Serei julgado por isso?
Fidelidade? Nem sei do que se trata. Desconheço os rigores das regras.
Sou livre de apegos.
"Que crime cometo quando amo?"

A conseqüência da causa, perdida na confusão, lamenta-se como vítima da situação:
- Isto não diminui o resultado das ações do acusado!

A intolerância agitada tampa os ouvidos num ato reflexo e com o dedo em riste, diz em tom alto:
- Não podemos aceitar isto. O acusado agora se diz vítima da situação por ele mesmo criada.
Se nada for feito, farei justiça com as minhas próprias mãos!

Aturdidas pela discussão, Verdade e Mentira estacionam no impasse. Julgamento suspenso.
N
ova data deverá ser marcada para que se apurem os atos do suposto devasso.
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Nina Delfim

terça-feira, janeiro 02, 2007

Pós-mortem

Eu sei que tens a garganta ressentida
Mas de nada te servirá o grampo preso ao nariz
O cheiro ácido que a morte exala
Nem mesmo os necrófagos cravos dissipam
Erga-te homem e e
nxuga os olhos
Ela está morta!
Jogue a carne apodrecida aos abutres
Desvia teu olhar deste leito ensopado de memórias
É pálida a tez do náufrago corpo que nele flutua
Não vês que a morte já se fez fecunda
Jaz em tímido jazigo a face em fogo que te ardia
Anêmico é o sangue estancado àquelas artérias
Onde havia um coração não há mais nada
Óbvia é a tristeza da perda
Revigora-te a alvura das idéias inomináveis
O fim é um frívolo assassino sem rosto
Erga-te e p
õe teus gestos em combate
Deixa verter tuas minúcias pelos pontos da ruptura

Deixa nascer o bastardo pensamento-deus
Que recém-nascido
da mortalha de tantos outros Eus
A verdade não contesta
“Inês é morta!”
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Nina Delfim

sábado, dezembro 30, 2006

Souvenir


Aqui me tenho
Feto sem útero
Cores em profusão
Rosto sem expressão
Polindo minha superfície
Entre a essência e a beleza
Sem o brilho natural da pele
Concebida pela reflexão alheia
Sob um universo de estrelas cegas
No reino dos restos do criador morto
Sorris a me esperar?
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Nina Delfim

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Bouquet

Enraizei-me em ti e te molhei de mim
Do entremeio nós
No ponto máximo do amor
Brotamos fecundos
Floressência
Fruta madura
Mousse macia
Polpa de cores
Amarelo-citrino e Vermelho-rubi
Macerados pelo tempo
Ainda te sinto
Guardo no carvalho o teu cheiro distinto
Retro-olfato apaixonante
Retro-gosto à boca
Sabor persistente
Madeira e tabaco confluindo em equilíbrio
Nas lágrimas bem formadas
Insisto-me Cassis
(o meu frutado mais doce)
Morango maduro
Com toques de cereja e blueberry
Inebriantes
Embriagar-nos-emos aveludados
Adstringentes seremos
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Nina Delfim

Liturgia do pecado


O nosso altar ficou pronto
não tem os afrescos de Masaccio

nem os de Michelangelo
É simples
É promíscuo
É divino
Adão & Eva aos pés da cruz
despidos de apegos
ajoelhados sobre o desejo
sem vestes morais
copulam delícias
comungam sob a nave escura
os prazeres carnais
Dois anjos nus
libertos da luz que condena
livres de tudo que aprisiona
tornam-se cúmplices do imensurável amor
e entoando Aleluias
erguem-se limpos aos céus mais íntimos
glorificando o gozo divino
aos olhos de um suposto Deus nas alturas
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Nina Delfim

segunda-feira, dezembro 25, 2006

Pietá


Em ti me encontrei
Em mim te perdi
Algemada à tua vida
Fiz do amor sentido
Minha regra de conduta
Cada grito meu
Uma ereção tua
Cada palavra tua
Um êxtase meu
Excitamos em nós dois a fome de amor
Mas impiedoso
O destino me afasta do sonho
Insaciável
O fim me aguarda
Ele já tem os cravos às mãos brutas
E sei que é chegada a hora
Ofereço-te meu corpo
Se tens fome de mim
Prova desta dor que me consome
Se tens sede
Mate-a nestas lágrimas que derramo
Regozija-te em mim porque eu te amo
De onde estou não mais te vejo
Já ouço os ais do meu martírio
Sinto meu corpo sendo rasgado
Para que tu saias de mim
Dilacerada por mãos que não temo
Ainda te quero
Sou prisioneira das orgias que previ
Mesmo na cruz
Desejo tuas negações excitantes
Anseio-te na luxúria dos meus quadris
Desata-me!
Liberta-me de ti!
Já sinto os cravos
Sangro saudades tuas
Escorro-me rubra
Não ouses ouvir meus gritos
Não quero que sofras comigo
Se o amor tiver que morrer
Que o crime seja perfeito
Crucifica-me!
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Nina Delfim

domingo, dezembro 24, 2006

Escultura

Depois que passastes por mim
restaram tantos espaços
que me perdi
Ando por todos os cantos
Procuro-me e não te acho
Toma-me tempo te exprimir em palavras
Modelo-te então no barro
A meu modo te faço
parado no tempo
sem qualquer movimento
permanente em mim
Nos tristes gestos meus
moldo alegrias sentidas
Já não mais posso seguir caminhando
pisando
sobre tudo o que deixastes aqui
Há tanto de ti por onde passo
que nem mesmo sei se ando por mim
ou se estou a passar pela vida seguindo teus passos
relendo velhas desculpas
ressucitando antigos bilhetes
No barro esculpido realço teus traços
Eternizo-me no que não és mais
Transformo-te em um adorno perfeito
Reescrevo-te em mim
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Nina Delfim

terça-feira, dezembro 12, 2006

Morrer de amor

Há muito ele a vira sair furtiva sob as pontas dos pés.

A falta de um adeus o atormentava. Se ao menos soubesse o motivo daquela atitude silenciosa, talvez a perdoasse. Nenhuma das ações corriqueiras apontava qualquer insatisfação. Tudo parecia ir tão bem entre os dois. Desconhecia a razão que a fez sair sem uma despedida.

A saudade ocupou-se em mantê-lo algemado àquele amor que o fizera feliz por tantos anos e sem oferecer resistência, entregou-se voluntariamente à tristeza, negando prontamente palavras de conforto. Abriu-se deixando que a dor se aconchegasse e inconsolável permaneceu até o seu último momento.

Transtornado pelas lembranças de um amor doentio, nem sequer cogitou a possibilidade esquecê-la.
Determinado a reencontrá-la, embrenhou-se mente adentro, farejando o rastro que a imaginação apontava como o caminho percorrido por ela na madrugada da fuga. Um resto de lucidez o mantinha ciente quanto à pequena chance de obter sucesso em sua busca. Dias se passariam até que retomasse a consciência e aceitasse a perda como irrecuperável. Sujeitara-se ao tempo se encharcando de dúvidas. Dias lentos o arrastavam por uma vida que teimava em não acontecer sem a mulher que amava tanto. Queria senti-la só mais uma vez.

As tardes se sobrepunham quentes abafando o ar e despindo as árvores. O cansaço reduzira a firmeza dos passos, cada vez mais curtos e pesados. Enquanto adentrava em sua empreitada, a esperança de reencontrá-la se dissolvia ao longo da trajetória. Desistiria de si se o calor insistisse um pouco mais.
A noite desceu fresca renovando a saudade do corpo quente ao qual estava tão habituado a se aconchegar. Quis tê-la ali, agarrada.

Diferentes um do outro. Ela, de cidade grande, moça bonita com trejeitos chamativos. Ele, um homem simples e de pouca fala, domesticado pela preguiça das pequenas cidades cobertas por poeira fina e vermelha. Compromisso social era ir à missa de domingo na igrejinha local pintada com cal virgem. De cidade grande a única lembrança que ele conservava era a do dia em que a conheceu.
Tomado pelas memórias de alegrias vividas, não se deu conta da madrugada. Não pregara os olhos um só instante.

O dia nasceu claro. Céu limpo e muito azul. Sentou-se. Puxou o ar. Olhou ao redor à procura de algo que lhe restaurasse o desejo de continuar. Corpo e pensamentos à míngua. Ao erguer-se, cambaleou e foi ao chão. Não encontrou recursos físico ou emocional disponíveis.
Sentia-se vazio, sem ossos ou músculos que lhe sustentassem a dor que lhe pesava a alma. O passado tinha ficado para trás e o rastro imaginário da mulher amada o fizera caminhar em círculo. Todo o empenho desprendido o trouxera novamente de volta para si mesmo.

Admitiu-se derrotado, recebendo o fim como uma dádiva.
A morte, que vinha de longe, mandou um aviso frio avermelhando o horizonte e o céu sangrou em solidariedade.
Manteria os olhos abertos para não encontrá-la à mente mais uma vez.
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Nina Delfim

terça-feira, novembro 28, 2006

Demência mórbida


Ressecou-se na véspera quando o desprezo lhe fez um aceno.
Ar rarefeito, desfeito de cheiros e o gosto do último beijo ardendo por dentro.
Longe da vida, por gosto, entregou-se à volúpia do que o satisfazia. Covarde demais para cogitar o auto flagelo seguiu à procura de alguém que o punisse. Enquanto as pegadas cresciam na sombra, do fundo escuro da imagem projetada sobre o piso frio escapou um som diferente, um choro concêntrico e único. Se havia mais alguém por perto, existia em silêncio e, se sofria, era de uma dor inaudível. Passaria horas afinando sílabas para compor com perfeição uma palavra capaz de exprimir com fidelidade o ruído daquele sentimento. Era um fraco-forte oscilante que nada tinha do que trazia consigo, mas que doía, doía tanto quanto a coragem que ele não tinha quando se sentia lúcido.
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Nina Delfim

quarta-feira, novembro 15, 2006

Sublimação


De tanto falar
de amor
a poesia ficou louca
submeteu-se à agulha
costurou a própria boca
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Nina Delfim

terça-feira, novembro 07, 2006

Appassionato melancólico


Num amplexo de posse nos atamos
Iniciamos no inexorável tempo um adágio amoroso
Entregamo-nos íntimos aos sons inaudíveis mais genuínos
Quedamo-nos lascivos por um amor sustenido
compondo em appassionato um allegro magnífico
Muito além da carne nos sentimos
Fomos almas rimando fragmentos de auras com desejos
Harmonizamo-nos delirantes pelas linhas da pauta
Mas da música executada ecoou um som seco e triste
Semifusas extremadas e confusas surgiram
impondo à melodia um rítmo confuso
Sincopados nos perdemos no compasso
e o som soluçante de um bandoneón insistente
chorou nossa letra cantada em lunfardo
O violino e o piano anunciaram o pranto
Um breve gesto da vida mestra encerrou a partitura
A composição concluída só toca agora as notas de repulsa
O amor perseguido por uma marcha fúnebre
num ímpeto malevolente se ressente
em gestos insanos nos quer dizer adeus
Tanta sonoridade expressamos que nem mais sei o que fomos
Se um tango melancólico em adágio
Se o allegro de uma sonata
ou um fado dissonante
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Nina Delfim

quarta-feira, outubro 25, 2006

DOI-CODI

um resto indefeso
violado
encharcado
marcado a ferros

á boca um trapo
sufocando gritos
doídos
constantes

Inflexível Ódio
fardado
bordunas
golpes de aço
testículos
anus rompido
honra e ossos quebrados

Super-homem vencido

herói sem história

Rins

alma

baço

sofrimento extraído

bisturi

escuro afiado

capuz aliado
do medo

espirrado
escorrendo esperança
perdida

distante da vida

urinou
gemeu
defecou
implorou pela morte

Pausa
Parada súbita
Um grito carrasco ordenou:

“Chama o doutor! O merda ainda não assinou!”
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“Senhor Deus dos desgraçados,
Dizei-me Vós, Senhor Deus, Se é mentira,
se é verdade, Tanto horror perante os céus.”
(Castro Alves)
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Nina Delfim

terça-feira, outubro 24, 2006

Nudas veritas



Recuou. Precisava de um pouco mais de tempo. Parecia-lhe indissolúvel o elo estabelecido entre ambos. A luz flamejante iluminou o caminho. Absorto pelas sensações internas desviou o olhar da tentadora curiosidade em vislumbrar as armadilhas que o aguardavam. Resistiria com bravura ao mosaico de impulsos sinestésicos que lhe impunha o dedo em riste do mundo exterior. O medo o arremessou contra o córtex. Quanto mais o puxavam para fora mais ele se encolhia dentro. Desgarrar-se do útero dela seria o primeiro passo em direção a morte. Lamentou-se por não ter ventosas às mãos. Exaurido, escorregou tão logo os frágeis ossos se afastaram. Fora do ventre, a realidade fatídica lhe estendeu os braços e prematura seguiu a vida breve. Providencial, a miséria com os olhos esbugalhados já havia lhe preparado o leito. Obstinada e sedenta em sua antropofagia cavara uma cova rasa para enterrá-lo ainda pequeno. Foi-se o menino dentro do prazo previsto. Antes que inteirasse dois anos de sobrevida recebeu o Espírito Santo e a Extrema Unção.
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Nina Delfim


segunda-feira, outubro 09, 2006

Aos olhos do mar



Entre uma e outra expressão tua
eu te vi a me olhar
Ao ver que me olhavas
fiz-me tua em teus olhos
Olhei-te pelo prazer de ver
pelo gosto de te ver ali
frente aos meus olhos
olhando para mim
Tu não tinhas aos olhos um olhar comum
os teus
enquanto nos meus
percorriam-me devorando minha nítida visão
Teus sons distantes
lançados além do mar
aos meus ouvidos
ficavam mudos
Palavras não semeadas nasciam súbitas
e só de amor pus-me a falar
Metia-me medo te olhar nos olhos
O que neles eu via
conspiraravam contra mim
Ao navegar em ti
assombros cresciam
pois teus olhos me viam além de mim
mergulhavam em minhas profundezas
desvendando-me frente a ti
Teus olhos
tão lindos
sentiam e falavam por mim
À luz dos olhos teus
fiz-me nua
despi-me de minhas defesas
e fiz amor contigo através da tua retina
Mas refém de tantos outros olhares
o teu olhar não me pertencia
receei então ancorar-me em ti
às pálpebras molhadas te comprimi
Ondas de pensamentos
levaram-me ao fundo de mim
naufraguei em vontades
nadei em dolosas saudades de ti
Agora
com os olhos fechados
sofro por este amor além mar
e cá estou desejando não mais ver-te a me olhar
implorando-te para que nunca mais deixes
os teus olhos sobre os meus.
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Nina Delfim

sábado, outubro 07, 2006

100 asas



Em vôos acorrentados
atravesso ares
e os arcos da íris
em busca de novos versos

Das sobras opacas de palavras
sem textura ou contexto
precipito-me

Vida vaga
sem previsão de epílogo
Da íris opaca escorrem folículos
fracos focos de um pensar não reciclado

Afugento os signos luzentes
da trama de falas em alto relevo
procuro aquilo que dorme tranqüilamente
sob minha sórdida arbitrariedade
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Nina Delfim

domingo, outubro 01, 2006

A rima


Criou-se a si própria
para a alegria dos homens
Bem-aventurados os escolhidos
para prevaricar com ela
Aos habituados à pressa
eu aconselho cautela
Guarde-a na boca
bem embaixo da língua
como um último desejo a ser saboreado
Sedenta
ela vai como o pólen no vento
leve
leviana
espalha-se
fecundando tudo
Não deixe que se perca
perdida se torna vulgar
entrega-se sem qualquer sentimento
Não tente saciá-la
Não se atreva a domá-la
receba-a simplesmente
deixe que venha
assim
como um beijo
No primeiro contato
seja discreto
controle o suor e o desejo
não demonstre excitação
insinue-se apenas
Fique atento ao compasso
ao menor sinal de descuido
acabará aprisionado no tempo comum
que só ela domina
Proteja-se dela
em caso de tormento
não demonstre aflição
através da insegurança ela te invade
alienando idéias
comprometendo o efeito da ação
Nem pense em decifrá-la
ela é cheia de artimanhas
adora delírios e lágrimas
Defenda-se e não se renda
Por fora é obscena
Por dentro ela é suntuosa
comunga recursos sedutores com sintonia perfeita
Cuidado
mantenha distância segura
proximidade exagerada
danifica a razão ocasionando o vício
Possuído por ela
não vai lhe sobrar nada
e sem criatividade
não poderá conquistá-la
Vista de longe parece comum
frívola e circunstancial
mas não se deixe enganar
duvide desta doce aparência
ela é sútil por isto é perigosa
Aproxime-se lentamente
evite tocá-la de impreviso
ela é avessa ao toque não consentido
se faz dura e quase sólida
interferindo em tudo
até mesmo no ritmo da fala
Conserve a paciência
penetrá-la à força
é agir contra o tempo cadenciado
ela tem seu próprio movimento
Seduzida ela inspira
exibe-se exclusiva
mostra-se bela e se faz rara
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Nina Delfim

sábado, setembro 09, 2006

Ruptura da Rima



escorregadia
a palavra
c
a
i
u
da
linha
desalinhada
a poesia
perdeu a rima


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Nina Delfim

segunda-feira, agosto 21, 2006

Insone




nas
noites
adentro
sem sono algum
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Nina Delfim

domingo, agosto 13, 2006

Cupido


Mira o alvo
Erra
Inconformado
Posiciona
O arco
Mira
A seta
Acerta
Ai de mim!
.
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Nina Delfim

quarta-feira, março 22, 2006

Passa-tempo



Não há mais tempo
no instante
que não passa
Em passos lentos
passo
por cima das horas
.
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Nina Delfim


Insônia



A noite tropeça
o universo cai sobre mim
mas antes que o dia amanheça
adormecerei
estrelas
.
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Nina Delfim

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

circunferência


Por onde passo
deixo meu rastro
cheiros que marcam
delimitando espaços
que chamo de meus
Compassado o passo
passo-a-passo
procedo
sigo
redesenhando
o círculo
que faço
.
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Nina Delfim

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Além da visão (Dueto)


Os livros estão espalhados pelo chão... montanhas de livros nesta sala... gostas de ver-me assim sentada e nua... assim... nesta pilha de livros... são páginas e páginas de uma vida... de vidas e vidas...

Gosto sim. E quem não gostaria de assim te ver? A imagem do teu corpo envolto de livros, de páginas e palavras dançantes, palavras cantantes, recorda-me que uma imagem vale mais que mil palavras. A imagem que tenho de ti revela-me muito mais a teu respeito que me poderiam dizer todos os livros que vejo aqui espalhados.

Eu sei que queres ler-me. Sei que queres ler todas as páginas da minha vida... eu sei... vejo o desejo crescer através dos teus olhos...

Um olhar diz tudo. O meu olhar diz tudo sim. O meu olhar diz-te tudo e não te mente, não te engana...

Não digas nada então... Eu pego nas tuas mãos. Não olhes mais para o meu corpo. Agora tenho vergonha. Quando me olhas eu vejo dez pares de olhos de vidas passadas... sinto-me angustiada... fecha-os para que não recorde quartos que transpiram a sexo. Fecha-os para que as imagens não me sigam e me assombrem nesta sala cheia de livros... Não, não fales!... não olhes... eu falo por ti. Adivinho-te cada pensamento que te assombra neste momento. Tens medo. Eu sinto a minha angústia que te provoca um pânico delicioso. Agarro as tuas mãos.

Sei que me proibiste de falar e de te olhar, mas não consigo impedir as minhas mãos de falarem por mim, de olharem por mim... através das minhas mãos eu vejo-te, eu leio-te... sinto cada palavra no teu silêncio, cada palavra enterrada no teu corpo. Palavras que te deixaram; palavras que nunca disseste. E eu sigo-te... sigo o teu corpo como se fosse espécie de bengala. O teu corpo é luz e é caminho. Eu sou um cego que te segue. Mas fico calado e quieto. Respeito-te porque respeito a tua vontade.

Deixa-os fechados. Deixa os teus olhos fechados. Assim não sinto vergonha do meu corpo ausente de olhos passados, de mãos passadas. De quartos que ainda hoje transpiram sexo. Eu fiquei lá. Sente esta página. Vê com os dedos os rasgos que deixaram ao lê-la... Sinto as tuas mãos percorreram cada folha de mim... sinto os teus dedos... tocas-me suavemente... tens medo que esta e esta página acabem por desprender-se de mim... Em tempos, pedi-te que me abrisses e me lesses... relê-me outra vez. Lê agora as páginas arrancadas. As minhas páginas arrancadas. As páginas secretas, obscuras... que só um cego consegue ler...

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Alexandra Antunes e Corto Maltese

sexta-feira, outubro 21, 2005

Aborto



Grávida de lua
pariu a meNina
o ciclo vão
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Nina Delfim

quinta-feira, março 24, 2005

À morte


Confessou a morte que q
ueria viver
Cravou à mente despida as unhas pintadas de cores vivas
Estava disposta a remover de si todos aqueles tons cinzentos
Um filete de luz a convidava a atrever-se e exigir vida
Erguendo-se frouxa contra o seu próprio encerramento
compreendeu que aceitar-se derrotada
reduziria o efeito da dolorosa despedida
Fervilhava-lhe ao estomago uma ânsia aflita

a bílis irrigava-lhe a língua ferina impiedosamente
Engoliu suas amarguras corajosamente
contendo um vômito proeminente
Há dias não comia ou bebia
a veia era alimentada insistentemente
A boca entreaberta
já pronunciava palavras atrapalhadas
A morte estava ao lado
cheia de si

a preenchia cinicamente
espalhando sobre ela todos os seus paradigmas
Salivou cada segundo restante
O ar se tornou denso e a respiração inconstante
uma dor aguda fez com que mordesse o lábio inferior
A morfina abrandou seus tremores e medos
acalmando seus horrores fúnebres

Calafrios e ais lacrimejantes a crucificaram injustamente
À face abatida e pesada
um sorriso indiferente a
repousou
um vago olhar pareceu perguntar:

Vida, nada mais tens a me dizer?
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Nina Delfim


sexta-feira, fevereiro 11, 2005

Objeto de consumo


Convencida de que não seria sucumbida pela escassez de alternativas, pressionou delicadamente o corpo contra o dele e fez uso da sedução como recurso. Encaixou-se, acomodando-o confortávelmente dentro dela.

Em movimentos circulares, entremeados por um ir e vir harmonioso, confessou o desejo de sobreviver a excitação no exato momento que antecedesse ao orgasmo. Embora não parecesse uma idéia apropriada, ele se mostrou curioso quanto a razão implícita na proposta dela.


Definiram, entre beijos molhados, as regras
. Aguardariam pelo suor e pela respiração ofegante para rasgarem todos os paradigmas. Quando todos os poros estivessem abertos ela atirar-lhe-ia a face o feminismo exacerbado que transformou o troglodita em um homem sem expressão própria. Ele, por sua vez, a questionaria a masculinidade adotada por ela para superá-lo na disputa por espaços.

A excitação deveria ser controlada, atingir o clímax premiaria a supremacia masculina e ao mesmo tempo atestaria confirmaria a vitória das mulheres nos enfrentamentos.


O fato de serem corpos desconfiados expostos à submissão mútua, desencadeou pensamentos em série e, sem que se dessem conta, tiveram sua intenção subornada pelo desejo.
Á face, ele ostentava o mesmo sorriso safado de quem vence uma partida blefada de truco. Percebê-la à sua inteira disposição fragilizava os princípios feministas, que desobedientes, ofegavam.

A umidade crescente interferira na unidade inicial mudando o curso e transformando o discurso planejado em palavras já conhecidas por ambos.
Ela havia sido dominada e estava ciente disto. Naquele momento nenhuma alternativa a justificaria como um ser capaz de interferir no que a engolia silenciosamente. Encontrava-se completamente limitada à sua condição de mulher. Todos os territórios estavam demarcados por seculares jatos de esperma, qualquer que fosse o espaço a ser ocupado já teria pertencido a ele de algum modo.

Uma preguiça de recomeçar o enfrentamento fez com que se rendesse mais uma vez. Abrir os olhos àquela altura, quando os movimentos dos quadris denunciavam um eminente orgasmo, de nada adiantaria.

À boca, o freio adaptado não a incomodou, adormeceu comodamente abraçada à insegurança dele.
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Nina Delfim

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

Mulher de ninguém

Desmantelado o cativeiro
resgatou-se rompendo as correntes
Ergueu-se ferida e se expôs ao mundo dos homens
Perdeu seu ar de graça aparente
Queimou conceitos decadentes
Incendiou os costumes existentes
Despiu-se completamente
Descartou-se da beleza que agradava ao seu senhor
Exibiu-se gente
esteticamente imperfeita
livre de todas as faces que a ocultavam
Afrontados pela capacidade demonstrada por ela
expuseram-na antiética ao caos de suas misérias
Vagou entre os extremos de ser ventre ou ser alguém na vida
Solta na imensidão do novo nada
encolhida sob o todo restante ainda por conquistar
perdeu a inocência ao ser atacada frontalmente pela insegurança
Foi à luta despida
armada de convicções decentes
Com a liberação da "pílula mágica”
de promíscua e vagabunda foi taxada
Independente da moral e dos "bons" costumes
o ato sexual foi tornado um prazer ao seu alcance
A influência externa quis moldá-la à força
equilibrou-se sobre a linha tênue que a conduzia
decidida em sua jornada feminina
enraizou suas primeiras glórias na certeza de oytras muitas
Estrategista de primeira
empobreceu o compartilhar conveniente aos ditames sociais
elaborando regras básicas de convivência humana
Fragilizada pelas atrocidades cometidas contra ela
gozou em silêncio vaidades e pequenas vitórias
convocando o mundo a uma audição de seus sons mais íntimos
Em vermelho escorreu-se
concebendo um mundo imprevisto e singular
sangrando em todas as cores e bandeiras
A liberdade se exibia sem pudores
instigando-a a desfazer-se dos horrores da submissão absurda
Na mais completa ausência de teorias
tornou-se o resultado do que não poderia mais ser
Fixou os pés além das fronteiras que avistava
Reconheceu-se igual
À primeira vista
permitiu-se deslumbrada
encantando-se com cada um de seus recantos
marcando a própria pele com impressões falsas
Drástica à ausência do cabresto
apagou de suas experimentações os pronomes possessivos
Livrou-se das amarras
definindo-se senhora de si
Uma mulher de ninguém
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Nina Delfim

quarta-feira, janeiro 05, 2005

terça-feira, janeiro 04, 2005

Air du froid



Klaus Nomi(1944-1983)

Cantor contra-tenor e barítono alemão, Klaus Nomi foi nomeado “clown” cibernético de uma Commedia dell’Arte Cósmica. Músico e ator performático, ícone dos anos 80 reputado pelas notáveis atuações vocais e invulgar personagem de palco com espectáculos bizarramente teatrais.
O visual de Nomi foi inspirado na combinação do expressionismo alemão com o design da escola Bauhaus. Suas performances iam desde interpretações de ópera clássica acompanhadas por sintetizadores a covers de músicas como The Twist de Chubby Checker.

Imperdíveis: Der Mussbaum, Lightning Strikes, The Twist, Samson and Delilah, The Cold Song, Air du froid.

Pain of Salvation - Latericius

segunda-feira, janeiro 03, 2005

sábado, janeiro 01, 2005

Menina D'Lua

Emilie Simon - Desert

Delicada relação


...e com docilidade extrema compartilhavam os pequenos prazeres diários. A assustadora desordem amorosa, observada nos dias de hoje entre homens e mulheres, não necessariamente nesta ordem, não os havia alcançado, viviam sem sobressaltos uma relação de amor gostoso, aconchegante e sem controvérsias. Simplesmente felizes...
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Se nos fosse dado o direito de dar continuidade a história acima, certamente inferiríamos ao seu contexto nossas impressões. Existem muitas maneiras de se concluir uma história de amor. Podemos dar a ela um desenrolar feliz ou acrescentar-lhe uma série de conflitos com um desfecho dramático e infeliz.
O pessimista tem sempre em mente a certeza de que a desgraça é eminente, hora ou outra tudo vai desmoronar e o otimista acaba pecando por excesso de autoconfiança. Ao se deliciar exageradamente com um suposto "viveremos felizes para sempre" se esquece de proporcionar à relação os estímulos necessários para que ela tenha realmente alguma chance de ser feliz.
Mais uma vez, a razão parece se situar ao centro, no meio do todo.
Quando tomamos conhecimento da existência de relacionamentos perfeitos, uma série de perguntas nos aflige. Especialistas do mundo inteiro em comportamento vêm buscando uma resposta acertada para saciar as inúmeras dúvidas existentes no que diz respeito ao amor, este sentimento tão desejado e minimamente usufruído que, desde os primórdios afronta a raça humana, afogando-a em um lastimável mar de lágrimas. Chora-se por amores fracassados mais do que por qualquer outro motivo.
Atribui-se a responsabilidade pela desordem amorosa aos mais diversos fatores, certamente do conhecimento de todos, já que relações conturbadas têm sido um tema de abordagem freqüente nos meios de comunicação e no
dia-a-dia de todos nós. Perderíamos horas à procura dos possíveis responsáveis e provavelmente não os encontraríamos. Seria adorável compreender o porque da maioria não conseguir vivenciar o amor sem a presença de tanto sofrimento. As justificativas apresentadas até o momento são meras suposições. O amor e suas variações parece não caber à intelectualidade.
Talvez este seja o cerne da questão, tirar proveito da sensação evitando a compreensão dos seus sutis rigores.
Por que o amor tem fácil combustão e é tão volátil?
Somos tão inseguros quando ousamos esta experimentação que acabamos por nos precaver excessivamente para não vê-la fracassar. São tantos os fantasmas a nos atormentar que esquecemos de aproveitar as vantagens ocasionadas por este estágio de sublimação. A vigília se torna tão minuciosa que a imaginação adoece, perturbando a lucidez. Se estivermos alterados não saberemos como lidar com a situação, às vezes distorcida.
Uma série de valores nos foi ensinado desde a mais tenra infância e todos eles estarão presentes em nossas ações. É muito comum rejeitarmos sentimentos que nos colocam em desvantagem. Esquivamos-nos habilmente à parcela de responsabilidade que nos cabe em acontecimentos desagradáveis. Sempre que possível encontraremos no "outro" uma ação qualquer que torne a nossa atitude compreensível. Se perspicazes conseguiremos não só nos livrarmos da nossa suposta culpa, mas fazer com que o outro a aceite como sua. Somos inegavelmente perversos! O instinto animal nos convoca diariamente à auto proteção. Relações amorosas que poderiam durar anos, não têm sobrevivido a dias ou meses. De um modo geral, o amor é um assunto muito verbalizado e raramente usufruído.
Que pena não é mesmo! Onde está o amor perfeito que tanto nos comove em filmes e best sellers? Eu não sei! Adoraria ter às mãos a resposta certa. Assim como você, permaneço agarrada a explicações pouco convincentes e sem aplicabilidade. Quem sabe se "baixássemos a guarda" não aumentaríamos as nossas chances para vivenciarmos nossas emoções sem tanto sofrimento.
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Nina Delfim